Meu Relato sobre Cuba

Autora: Anjuli Tostes

Quando falamos de Cuba, não existe resposta fácil. É uma pena que essa polarização na qual o Brasil foi imerso tenha produzido tantas falácias sobre o país, que não sobrevivem a um dia de caminhada em Havana. Desconfie de quem demoniza e também de quem não enxerga qualquer problema.

Não tenho aqui a pretensão de dizer o que é ou não a verdade sobre o Cuba e o regime, mas, apenas, de falar sobre o que vi nesses 18 dias – com a ressalva de que é difícil falar sobre um sistema tão diferente do nosso sem ser simplista.

Vim a Cuba com o propósito pessoal de conhecer o máximo possível sobre este país. No tempo em que estive aqui, conversei com mais de 100 pessoas, andei pelas ruas da capital Havana e por municípios em pelo menos 5 províncias: La Habana, Villa Clara, Artemisa, Matanzas e Cienfuegos.

Conheci o trabalho do agricultor no interior e de trabalhadores de todos os tipos na grande urbe que é Havana. Conversei com pessoas que trabalham para o Estado e pessoas que são chamadas aqui de “dissidentes”, por não concordarem com o regime socialista vigente no país.

Comi a comida dos cubanos, hospedei-me na casa de cubanos e passei um tempo em um acampamento rural estatal. Trabalhei na lavoura. Frequentei os espaços em que os cubanos transitam, se divertem e vivem.

Cuba tem problemas, como qualquer outro país. É um povo que vive de forma bastante modesta, sem nenhum tipo de luxo. Os salários são bastante baixos – em torno de 30 dólares por mês – mas muitas vezes são complementados por atividades privadas, em geral vinculadas ao turismo, como pequenos restaurantes (os famosos “paladares”), aluguel de quartos, lojinhas, táxis e galerias de arte.

Em Cuba, boa parte das necessidades básicas da população é suprida diretamente pelo Estado. O povo cubano já nasce sem se preocupar com gastos com saúde e educação.

A saúde aqui é pública, universal e gratuita, com indicadores de expectativa de vida e mortalidade infantil de dar inveja a muitos países desenvolvidos (farei em breve uma postagem específica com detalhes sobre a saúde em Cuba). São muitos hospitais e não há filas. Visitei alguns e pude testemunhar isso.

O povo cubano também não precisa se preocupar com educação, que é gratuita. Todos têm acesso ao nível básico e também ao superior. É bem difícil encontrar aqui alguém que não tenha, pelo menos, uma graduação. Boa parte dos habaneros também fala mais de um idioma.

E saúde e educação não se resumem apenas ao acesso a hospitais e escolas. Em Cuba, livros e medicamentos são altamente subsidiados pelo governo e, quando não são entregues gratuitamente, custam centavos para a população.

A tarifa do ônibus é quase zero, cerca de 6 centavos de reais.

Não há (não vi e não soube de) pessoas morando em mansões ou latifundiários – esses locais foram expropriados na época da Revolução, a começar pelas fazendas da família de Fidel. Quem tinha mais de uma casa deveria entregar a segunda. O mesmo para o que se considerava terras em excesso.

Perguntei muito, e em vários pontos do país, e não tive notícia de pessoas passando fome ou sem teto. Na época da revolução as casas foram distribuídas de forma igualitária à população, e quem mais hoje precise de um lugar para si obtém um financiamento do governo proporcional ao seu salário.

Desde que nasce, todo cubano recebe uma cesta básica (chama-se canastra básica) ao início de cada mês, com arroz, feijão, açúcar, azeite, frango, café e ovos. As crianças também recebem diariamente uma garrafa de leite até os 7 anos de idade.

Há acesso garantido à cultura e ao esporte. Eventos e museus têm entrada gratuita para cubanos, e, nos bairros, são oferecidas de graça aulas de diversas modalidades desportivas – não à toa, Cuba é sempre medalhista nas Olimpíadas.

O sistema político é especialmente interessante, e está bem longe de ser uma ditadura como afirmam alguns em nosso país.

Há um único partido, mas as candidaturas são avulsas. Ou seja, você não precisa ser filiado a nenhum partido para se propor a um cargo eletivo. Todos os representantes são escolhidos diretamente pelo povo por meio do voto, com exceção do presidente, que é eleito de forma indireta (como nos EUA) pelo parlamento.

Os deputados não recebem um salário para exercer seus cargos, trata-se de um trabalho voluntário. Não há campanhas eleitorais, mas a divulgação dos currículos dos candidatos. Mais de 50% dos deputados/as são mulheres, e todos os mandatos são revogáveis pela população.

Há um mecanismo de comitês em todos os bairros que coloca os representantes permanentemente em contato com as bases durante todo o período em que os mandatos são exercidos.

É um país sem violência, em que as casas não têm muros nem cercas. Perguntei a muitos se se lembravam do último caso de assassinato na ilha. Eles franziam as testas, paravam por um momento e respondiam com algum esforço mental “houve algo assim há alguns anos em tal província”.

Concluo dizendo que presenciei, em meus dias no país, um verdadeiro milagre. É um milagre que uma ilha, vitimada por mais de 50 anos de bloqueio comercial, econômico e financeiro imposto pelos Estados Unidos, tenha acumulado tantas conquistas, em especial no campo social. Cuba é uma pequena ilha com 11 milhões de habitantes e 110 mil km quadrados, mas um gigante político, que consegue, até hoje, ameaçar o status quo de países poderosos pelo simples fato de existir assim, tal como é. Como me disse uma cubana “talvez sejamos muito contagiosos”.

 

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