“Cuba tem política para fomentar investimentos”

Ricardo Araújo. Editor de Economia

Nem só de rum, mojitos e charutos vive Cuba. O único país socialista das Américas está cada vez mais aberto ao mundo, recebendo cerca de quatro milhões de turistas anualmente. A nação de contrastes políticos e econômicos quer estreitar relações comerciais com empresas do Rio Grande do Norte. Na quinta-feira passada, uma comitiva formada pela cônsul-geral de Cuba no Brasil, Laura Ivet Pujol Torres; pela conselheira comercial da Embaixada de Cuba no Brasil, Dagmar González, e convidados, visitou o empresariado potiguar para difundir a nova política de estado de Cuba, voltada para o estreitamento de relações comerciais com diversos países do mundo.

Segurança jurídica, transparência nas ações e muitas possibilidades de crescimento econômico fazem parte do projeto do governo cubano apresentado à Fiern, Associação Comercial do RN e UFRN. “Nós fizemos uma releitura do nosso comércio exterior para simplificá-la. Era muita legislação, muitas leis separadas. Nós conseguimos consolidar, em 2014, toda a legislação de Comércio Exterior em cinco marcos legais. Isso facilita muito o entendimento do empresário que não conhece Cuba. É simples e está dando certo. É assim que estamos atraindo investimentos e acordos de cooperação comercial”, declarou Laura Pujol. Veja abaixo, como Cuba pretende fechar negócios com o estado potiguar.

Cuba desenvolveu uma política de estado para ampliar relações comerciais. Como ela está sendo implementada e como funciona?

Cuba tem, sim, uma política de estado para fomentar os investimentos estrangeiros. Acompanhar o sucessos dessas empresas faz parte da prioridade de desenvolvimento nacional do nosso país. Tudo tem sido feito com muita ênfase, ao longo dos últimos cincos anos e os primeiros resultados tem aparecido agora. É um processo que leva tempo. Estamos vendo agora que a dedicação de tanto tempo e os esforços a chamar os empreendedores do mundo para conhecer Cuba e nossas oportunidades, estão dando certo.

Em que Cuba está interessada com essa política?

Nós estamos interessados em ter uma carteira diversificada, com vários países. É uma questão de soberania nacional contar com vários parceiros para levar à frente o nosso desenvolvimento econômico. Queremos ter relações comerciais não somente com um país. Hoje, temos relações com 75 países. Isso foi parte da nossa convicção e desenho para nosso desenvolvimento. Estamos procurando o caminho para construir um socialismo sustentável e próspero para nossa população.

Queremos crescer, mas crescer com inclusão. Isso leva tempo, mas estamos convencidos que estamos no caminho certo.

Nessa visita ao Rio Grande do Norte, o que foi feito?

Nós estivemos na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a UFRN, para convidar a reitora Ângela Paiva para participar do intercâmbio acadêmico com Cuba. Foi nossa primeira missão aqui nessa visita. O seminário na Fiern foi muito positivo, despertou muitas curiosidades e isso foi, no nosso ponto de vista, proveitoso. Alguns resultados já saíram desse seminário. Foi tudo muito positivo e estamos contentes com o resultado. Deixamos muitas pessoas interessadas em fechar negócios conosco.

A partir de quais setores surgiu o interesse de Cuba em comercializar com o RN?

Cuba abriu, aqui no Nordeste, um Consulado Geral que se encontra sediado na Bahia, mas abrange todos os estados do Nordeste. O intuito é diversificar as nossas relações econômicas com o Brasil fazendo, de uma maneira, que possamos conseguir a participação de todos os estados nordestinos nessa relação. Sabemos que são realidades diferentes em cada estado, que existem dinâmicas distintas entre um lugar e outro e leva tempo descobrir e leva um tempo entrar em alguns estados. Há estados que tem vocação de internacionalização maior do que outros. Em outros, essa vocação é menor, mas com potencialidades em áreas nas quais podemos fazer o intercâmbio.

 Seria uma descentralização das relações comerciais no Brasil?

Cuba já tem importantes relações comerciais e econômicas com o Brasil, que é um dos nossos principais parceiros na área comercial. Então, esse relacionamento se concentra, fundamentalmente, nas regiões Sul e Sudeste. E, a partir da criação do Consulado em Salvador da Bahia, criamos também um Consulado em Manaus, na região Norte, estamos procurando ampliar essa área de influência, esse intercâmbio nesses locais onde podemos encontrar relações diretas com os produtores, evitando, inclusive custos mais altos nas operações. O transporte fica mais simples saindo de um aeroporto que está mais ao Norte, próximo de Cuba, do que do Porto de Santos, por exemplo. Então, estamos também buscando pontos de saída que sejam no Ceará, Maranhão ou aqui no Rio Grande do Norte. Mas que sejam mais vantajosos do ponto de vista de preço e de tempo de viagem.

Essa vinda ao RN atendeu pedidos do empresariado local?

Eu vim em outubro do ano passado e visitei as principais instituições. Eu realmente encontrei um interesse muito grande por estabelecer essa relação. Então, a partir de um pedido do presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte, Amaro Sales, nós fizemos um seminário de promoção de oportunidades de negócios com Cuba e onde explicamos desde a posssibilidade de estabelecer alguns investimentos brasileiros e potiguares em Cuba, quanto à estimular esse intercâmbio comercial que hoje, praticamente, não existe. Então, foi muito interessante. Encontramos algumas empresas da área alimentar e da área da construção que estão interessadas e que irão passar a integrar nossa carteira de fornecedores.

 Qual o primeiro passo para isso acontecer?

Eu penso que a primeira coisa que pode acontecer é o intercâmbio comercial. Certamente, aquelas empresas que tem vocação de exportação ficarão interessadas em vender para o mercado cubano, que é simples, transparente e há uma segurança muito grande no retorno do investimento, pois temos uma condição de pagamento muito favorável. Isso é o permite nosso intercâmbio comercial com o Brasil e integra uma primeira etapa. Quando o empresário vai à Cuba, normalmente se encanta e aproveita outras oportunidades. Depois que faz o investimento, há um outra etapa que, inclusive, está acontecendo agora com empresas brasileiras. Elas passaram a usufruir das dependências das Zonas Especiais de Desenvolvimento, onde realmente a tributação é muito vantajosa. Além da logística, que é muito boa e o sistema de trabalho permite uma segurança muito grande no investimento.

Como o empresariado pode conhecer mais as oportunidades?

Foi por isso que viemos. É um trabalho que sabemos que tem que ser feito em muitas etapas. Viemos uma vez, depois viremos de novo. Por isso, também, temos a possibilidade de participação na Feira Internacional de Havana, que é uma feira multissetorial que acontece há mais de 30 anos. Pelo menos 200 empresas participam todos os anos e são fechados negócios de bilhões. Normalmente, mais de 70 países participam. É um momento para conhecimento do mercado, para prospecção do mercado cubano e o conhecimento das características e realidade econômica local de Cuba. Então, muitos empresários brasileiros se interessam e participam dessa oportunidade. Penso que, na parte comercial, se requer muito mais tempo para criar uma confiança, um relacionamento. Penso que, para isso, a criação de missões comerciais é um momento interessante para se conhecer o mercado.

 O que a senhora acredita que o RN possa proporcionar à Cuba?

Eu ainda não sei. Eu ainda não tenho uma resposta. Estou, agora, numa fase de conhecimento. Eu não sei por onde e de que forma essa relação será criada. Mas, num primeiro momento, já temos criado alguns interesses. Eu penso que aquelas empresas, como as que vendem produtos alimentícios e já

estão fazendo os primeiros passos para se creditar como exportadores para Cuba, vão ser os primeiros resultados. Mas, não necessariamente, serão os mais importantes. Talvez, isso vai dar em outras coisas. Onde menos se imagina, está o tesouro,

Cuba está aberta ao comércio externo, mesmo sendo uma República socialista?

Nós somos uma República socialista. Mas, não concordo que sejamos um país fechado ao comércio internacional, às relações internacionais. Já fomos. Há pelo menos 30 anos, que nós modificamos a nossa legislação para permitir o intercâmbio comercial mais aberto. Nós não teríamos sobrevivido à queda dos países socialistas, ao final da União Soviética, senão tivéssemos feito isso nos anos 1990.

Há muitos anos que as empresas estrangeiras tem investimentos em Cuba e, há muitos anos, que Cuba está preparada para estabelecer esse relacionamento.

O que foi que mudou recentemente?

Eu sei que todos tem a imagem de que Cuba é fechada. Cuba levou muitos anos abrindo e dando oportunidades, mas o que mudou a percepção da imprensa e do público em geral foi a mudança de atitude dos Estados Unidos face ao relacionamento com Cuba. Ao acontecer essa mudança, ela não acontece sozinha. Acontece com uma mudança que vem associada à necessidade dos Estados Unidos de justificar essa mudança de política e lançar mensagens diferentes sobre o que acontece em nosso país. Mas isso é uma coisa da grande imprensa. A verdade é que nós, há muito tempo, temos uma legislação que permite o intercâmbio comercial e estamos abertos a investimentos estrangeiros.

Muitas empresas européias, chinesas e russas que investiram em Cuba hoje estão firmes nos negócios e não querem ir embora. Estão com resultado muito lucrativos. Então, isso é o que muda a forma de perceber a realidade cubana a partir da campanha que se faz na mídia para justificar essa mudança de política pelos Estados Unidos. Eu sei isso porque sou cubana e conheço a realidade do meu país.

 A instabilidade político/econômica brasileira pode interferir nesses acordos que deverão ocorrer com os estados brasileiros?

Nós sempre temos tido ótimas relações comerciais com o Brasil. Relações que tem sido crescentes com o tempo e relações que tem mantido uma saúde muito boa e que estamos trabalhando, ainda mais, para melhorar. Nós confiamos muito na possibilidade de manter esses vínculos de maneira estável e não prevemos nenhum tipo de modificação nessa tendência ascendente de relacionamento.

Fonte: http://www.tribunadonorte.com.br

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